O primeiro e único barão negro do Império

O contexto de vida de Francisco Paulo de Almeida é ambíguo e complexo, pois como negro livre e rico, devido à época em que viveu, não podia atuar a favor da abolição sem perder os próprios privilégios, mostrar-se contrário aos fazendeiros escravistas porque era um deles ou se posicionar contra o governo imperial de quem receberá o título de barão

Por Morgana Gomes | Adaptação web Tayla Carolina

Filho primogênito de Antônio José de Almeida, homem branco, e de Galdina Alberta do Espírito Santo, mulher negra que ninguém sabe ao certo se fora liberta ou já era livre, Francisco Paulo de Almeida nasceu em Lagoa Dourada, freguesia de São João del Rey, Minas Gerais, em 10 de janeiro de 1826.

Apesar da profissão de seu pai ser desconhecida, aparentemente sua família tinha algum recurso, pois é sabido que Antônio pertenceu a duas irmandades: a de São João Evangelista e a de Nossa Senhora das Mercês. Francisco, que teve 19 irmãos, começou a trabalhar cedo como ourives e, aos poucos, especializou-se na confecção de abotoaduras de ouro e botões de colarinho.

Ao mesmo tempo, a filiação paterna nas irmandades possibilitou ao adolescente o aprendizado tanto do idioma francês quanto do violino, bem como a autorização para tocar o instrumento nos velórios, fato que lhe rendeu ganhos extras. Tais diferenciais já tornavam o jovem bem peculiar em termos de educação se considerarmos os padrões disponíveis para as camadas de baixa renda no século 19.

Aos 16 anos, Francisco perdeu a mãe, mas, durante a partilha de bens dela, recebeu aproximadamente 257 mil réis. Cinco anos depois, devido ao falecimento da avó, garantiu mais 99 mil réis. Devidamente economizados, a soma de ambos os valores, junto aos ganhos proporcionados pelo violino, fez com que ele começasse a trabalhar como tropeiro entre Minas Gerais e Rio de Janeiro.

 

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Certamente, a escolha da profissão também determinou o futuro do jovem, pois, desde a chegada da Família Real ao Brasil, a atividade havia adquirido uma posição estratégica em função das relações de sociabilidade, pois exigia um deslocamento permanente, comunicação com pessoas de diversas classes sociais, transmissão de notícias e de acontecimentos da Corte, contato com as fazendas e, principalmente, com os fazendeiros importantes do interior que, quando estreitado, chegava a ter um aspecto quase que familiar.

Tal situação ainda favorecia a chamada prática de compadrio adotada, que permitia, além da ajuda financeira, a infiltração social do afilhado tanto na rede de sociabilidade quanto entre os parentes do padrinho. Aparentemente, Francisco soube explorar bem esse aspecto, tanto que, em 1882, José Ildefonso de Sousa Ramos, o 2º visconde de Jaguari, e o comendador Domingos Teodoro de Azevedo foram os responsáveis por inseri-lo no mundo das negociações empresariais.

Nesse ínterim, ao completar 34 anos, além de se casar com Brasília Eugenia da Silva Almeida, mulher branca e de família tradicional de Conservatória, distrito do município de Valença, no Rio de Janeiro, com quem teve dez filhos, Francisco também comprou sua primeira fazenda, no Arraial de São Sebastião do Rio Bonito, no Vale do Paraíba fluminense.

 

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Dado o primeiro passo para se tornar cafeicultor, graças aos negócios que sabia gerenciar, começou a prosperar e, rapidamente, foi adquirindo outras fazendas de café: Veneza, em Conservatória, Rio de Janeiro; Santa Fé, em Mar de Espanha, Minas Gerais; Três Barras, em Três Rios, Rio de Janeiro; Santa Clara e Piracema, ambas em Rio Preto, Minas Gerais; além de inúmeros escravos para tocá-las.

Em cada uma delas, ele ainda construiu sedes magníficas que lhe propiciavam uma vida de luxo em meio à escravidão. Mas por ser extremamente hábil com as finanças, em 1870, também começou a se dedicar a importação e exportação e, em paralelo, a investimentos diversificados, que incluíam até ações.

Consequentemente, nem a crise do café afetou sua expansão econômica, tanto que, na condição de homem rico, foi sócio-fundador do Banco Territorial de Minas Gerais e do Banco Crédito Real de Minas Gerais. Em 1883, também participou da construção da Estrada de Ferro de Santa Isabel do Rio Preto.

Como os trilhos do empreendimento atravessavam sua fazenda Veneza, assistiu à inauguração dela ao lado de D. Pedro II. Entre 1882 e 1884, passou ainda a ser o principal provedor da Santa Casa de Misericórdia de Valença, feito que lhe garantiu, em 16 de setembro de 1887, o título nobiliárquico de Barão de Guaraciaba, entregue pela própria Princesa Isabel por “merecimento e dignidade”.

 

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