Laura Mulvey: uma cineasta feminista

O cinema é um instrumento que permite um diálogo com o discurso articulado por diversos outros setores da sociedade, inclusive proveniente de movimentos sociais, em períodos distintos da história

Por Sergio Batisteli | Foto: Divulgação | Adaptação web Caroline Svitras

Crítica de cinema, cineasta, feminista e professora universitária, Laura Mulvey nasceu em 15 de agosto de 1941, em Oxford, Inglaterra. Possui uma criação intelectual com textos e produções audiovisuais realizadas, que pode ser sintetizada a partir de uma idealização principal, a produção de uma crítica feminista ao cinema narrativo clássico tradicional e o rompimento com seus sistemas de prazer visual, como possibilidade de produzir um contracinema.

 

Seu artigo mais conhecido, O Prazer Visual e o Cinema Narrativo (1975), publicado na revista Screen, além de ser um divisor de águas para os estudos feministas do cinema, é um dos trabalhos mais publicados, explorados e traduzidos sobre o assunto.

 

Laura procura na teoria da psicanálise os argumentos para realizar uma densa crítica da imagem, principalmente feita ao cinema hollywoodiano, como uma mercadoria. Nesse artigo, ela afirma que a predominância do olhar masculino equivale à imagem da mulher como objeto passivo do olhar. O inconsciente da sociedade patriarcal ajuda a estruturar a forma do cinema.

 

O olhar da câmera mostra os acontecimentos que são filmados; o olhar da plateia que vê o filme; e aquele que os personagens da película trocam entre si. Segundo Laura, existem esses três tipos de olhar no cinema narrativo clássico. No entanto, a linguagem do cinema convencional hollywoodiano desconsidera os dois primeiros tipos, mantendo apenas o terceiro.

 

A autora feminista propõe que rompamos esse mecanismo para experimentarmos outro, o da desfamiliarização, que pode abrir um novo caminho de percepção cinematográfica.

 

Assim como Quentin Tarantino, que rompeu com a narrativa clássica hollywoodiana nos anos 1990, com uma forma libertária de utilizar a linguagem cinematográfica em longas-metragens como Cães de Aluguel (1992) e Tempo de Violência (1994), Laura Mulvey também faz o uso da linguagem audiovisual fora dos padrões estabelecidos. No filme Riddles of the Sphynx (1977), ela faz o que chamou de contracinema, desconstrói a linguagem de prazer visual do cinema narrativo e constrói um deslocamento do olhar e do sentido. Desse modo, o ritmo da narrativa tradicional é alterado, na sua parte central, em 13 fragmentos diferentes narrativos; em cada um dos fragmentos, a câmera é colocada no centro do espaço, faz o mesmo movimento de 360 graus, conhecido como panorâmica, em um longo plano-sequência; Laura aparece no início o no fim do filme e, em pelo menos umas das cenas, é possível notar a imagem da cineasta por trás da câmera, refletida em um espelho, recurso que lembra ao espectador que ele está assistindo a uma película. Por tais participações a diretora denuncia o mecanismo de produção e rompe com a narrativa tradicional.

 

Revista Leituras da História Ed. 61

Adaptado do texto “Sétima arte de salto alto”