Entenda a queda do comunismo na Polônia

O Socialismo, que como o Capitalismo – e adversário dele – foi uma força política das mais importantes do século 20, vigorou no planeta por mais de 75 anos e deixou marcas profundas nas sociedades e na feição política e econômica de todas as nações

Por Luiz Muricy Cardoso | Foto: Getty Images/Keystone | Adaptação web Caroline Svitras

O Comunismo não foi extinto completamente; é o regime vigente na economia chinesa, cada vez mais forte, na Coreia do Norte, sua aliada, e em Cuba. Entretanto, sua característica econômica excludentemente estatizante foi, ao longo do fim do século passado, sendo gradualmente substituída pela democracia liberal nos países em que vigia, como a Rússia e a Polônia. Contribuíram para a queda do Comunismo personagens como Lech Walesa, sindicalista polonês que, tendo contrariado valentemente o governo socialista, chegou à presidência da República e atuou de maneira decisiva no estabelecimento da atual conjuntura político-econômica mundial. Lech Walesa, um dos homens mais influentes de seu tempo, foi um corajoso defensor da democracia e das liberdades políticas e, em que pesem as críticas muitas vezes veementes a sua pessoa, merece ter seu nome relacionado aos personagens de maior relevância que como ele se opuseram a regimes discricionários

 

O eletricista Lech Walesa, polonês, foi um Lula às avessas. Esse sindicalista que também chegou à presidência de seu país, ao contrário de Luís Inácio, colocou-se em oposição aos regimes de esquerda e, contrariando as determinações do partido comunista da Polônia fundou o sindicato independente Solidariedade que, escaldado nas desventuras impostas aos trabalhadores pelo comunismo polonês liderado pelo presidente da república Wojciech Jaruzelski, começou a se opor ao regime estabelecido e provocou a queda do socialismo na mesma época em que se desmantelava a União Soviética, convertendo-se num fator importantíssimo e decisivo para a mudança da feição política mundial. Esse homem intrépido e resoluto enfrentou prisões e, liderando greves e outros atos de rebeldia veementemente combatidos pelos comunistas chegou, após derrotar a ditadura, ao cargo de presidente.

 

Vocação oposicionista

Lech Walesa | Foto: Reprodução/www.20khvylyn.com

A trajetória de Lech Walesa teve início já nos anos 60, quando começou a trabalhar no estaleiro naval da cidade de Gdansk. Aos 24 anos, em 1967, empregou-se como eletricista e começou a adotar uma atitude de revolta contra a repressão governamental armada às manifestações operárias. O futuro presidente da Polônia partiu assim para encampar a luta pela implantação de sindicatos livres no país, desatrelados do restritivo Partido Comunista Polonês. Assim fundaria depois o sindicato independente Solidariedade, responsável pela consecução de importantes vitórias políticas e econômicas principalmente após a greve que liderou mobilizando os trabalhadores do estaleiro e que logo se alastrou para outras empresas, isso em 1980. As reivindicações, amplamente satisfeitas, incluíam liberdade política e liberdade de expressão e religião. Depois da implantação da lei marcial no ano seguinte, o sindicato de Lech passou a atuar na clandestinidade, tendo as leis responsáveis pelas conquistas sido revogadas.

 

Então era presidente o linha-dura Wojciech Jaruzelski. O solidariedade permaneceu na clandestinidade por cerca de oito anos, como também outras organizações operárias. Só em 1989 o sindicato voltou à legalidade. Naquela época, após a derrocada do comunismo e o esfacelamento da União Soviética, puderam ser realizadas eleições livres na Polônia. Eleito em 1990, Walesa tomou posse em 22 de dezembro. Governou durante cinco anos e foi derrotado nos pleitos de 1995 e 2000; nesse conseguiu apenas 1% dos votos, insatisfeitos que estavam os poloneses já com suas ideias. Abandonou o sindicato em 2006, descontente com as posições do Partido Lei e Justiça.

 

Um aumento nos preços das carnes desencadeou greves em toda a Polônia no verão de 1980 | Foto: Alliance/DPA

 

Lech Walesa, que por sua atuação em favor da democracia recebeu o Prêmio Nobel da Paz em 1983, é uma personalidade controvertida, sobre o qual se ouvem as opiniões mais díspares. Durante seu mandato, cumprindo uma promessa feita para se fosse eleito, assistiu à missa todos os dias. Nascido em 29 de setembro de 1943 na cidade de Popowo, chegou a se graduar em economia após tornar-se técnico eletricista. Casado com Danuta Walesa, o líder governou a Polônia de 22 de dezembro de 1990 a 22 de dezembro de 1995.

 

Recentemente o cineasta polonês Andrzej Wajda filmou uma obra em comemoração aos 70 anos de Lech Walesa, que, ao contrário de ser uma obra de aceitação consensual, sofreu críticas favoráveis e contrárias de partidários e adversários do antigo sindicalista. Deixando de lado as críticas, o fato é que Walesa, tendo liderado a gigantesca greve nos estaleiros de Gdansk, fez desabar o edifício comunista o que levou ao esfacelamento das forças de esquerda em toda a Europa oriental e, por extensão no resto do mundo, convertendo-se assim numa das personalidades mais importantes do século 20.

 

Revista Leituras da História Ed. 86

Adaptado do texto “Solidário e independente”