Conheça a história de amor do prisioneiro 32407, o Tatuador de Auschwitz.

Submeter-se de forma voluntária ao nazismo nunca esteve nos planos de Lale Sokolov, mesmo sendo apontado ao longo da vida como mais um colaborador nazista.

Por Morgana Gomes / Adaptação Web Rachel de Brito

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Quando a sorte ajuda e o carisma pessoal encanta até os inimigos, não há muros que possam barrar a esperança de um jovem que se move impulsionado pelo amor.

Apesar de todas as atrocidades que o cercavam, foi tatuando que Lale Sokolov – nome que adotou para cair no anonimato – conheceu e se apaixonou por Gita, mulher que foi sua companheira de vida.

Embora a existência do tatuador tenha chamado a atenção dos historiadores, que sabiam que ele era um prisioneiro judeu, nunca ninguém o encontrou.

O mistério de guerra que parecia nunca ser solucionado perdurou por mais de 50 anos, pois ele também se transformou em um segredo familiar, que tinha como objetivo ocultar vários sofrimentos pessoais.

Somente quando já se encontrava viúvo e bem longe da Alemanha, Lale, à época com 80 anos, revelou que tinha sido o prisioneiro 32407, número de série correspondente ao “Tatuador de Auschwitz”; e que havia nascido de pais judeus, na Eslováquia, momento em que foi registrado com o nome Ludwig Eisenberg.

Segundo a escritora Heather Morris, a quem Lale confiou sua própria história, ao longo dos anos, ele manteve a crença equivocada de que tinha algo a esconder, pois temia ser visto como um colaborador nazista. “Os horrores de sobreviver quase três anos em um campo de concentração fizeram com que vivesse em culpa. Mantendo o segredo, que ele mesmo descrevia como um fardo, Lale acreditava que protegeria sua própria família. No entanto, ele fez o que fez para sobreviver. Como não lhe foi oferecida a possibilidade de ter esse ou aquele outro trabalho, sabia que precisava aceitar o que lhe davam e ainda agradecer, porque isso significava que iria acordar na manhã seguinte”, pondera Morris.

Ela ainda nos explica que foi somente depois que Gita morreu que o tatuador decidiu revelar, com o apoio do filho do casal nascido em 1961, a história de sobrevivência e de amor que tivera ao lado dela em Auschwitz e, a partir de 1945, ano em que se casaram no mês de outubro e mudaram o último nome para Sokolov para se adequarem à vida em uma Tchecoslováquia controlada por soviéticos.

Entre um obstáculo e outro, pouco tempo depois, resolveram se estabelecer o mais longe possível da Europa. Decidiram, então, se mudar para Sydney, na Austrália. Mas, durante a viagem, conheceram um casal de Melbourne que os convenceu a começar uma vida nova no norte da Austrália.

Chegando lá, Lale retomou os investimentos na indústria têxtil, enquanto Gita começava a desenhar vestidos, função que a fez visitar a Europa poucas vezes antes de morrer, em 2003. Já Lale nunca mais pisou no velho continente.

Até então, somente os amigos mais próximos sabiam da história de amor do casal e, se não fosse Morris que teve o privilégio de revelá-la para o mundo, ela também seria sepultada junto ao corpo do ex-tatuador de Auschwitz, em 2006.

Leituras da História – Como e por que Lale Sokolov se tornou o tatuador de Auschwitz?

Heather Morris – Em abril de 1942, quando os nazistas chegaram à casa de Lale, o filho de pais judeus, nascido na Eslováquia, ofereceu-se como mão de obra na esperança de que sua família não fosse separada. Até então, o jovem de 26 anos não imaginava o que acontecia no campo localizado no território polonês. Levado para lá, mal chegou, os nazistas trocaram seu nome pelo número 32407 e, logo em seguida, ele foi escalado para trabalhar, como muitos outros homens, nas construções de expansão do campo.

Passada algumas semanas, Lale contraiu febre tifoide. O que poderia ser chamado de azar tornou-se um fator de sorte. Alguns prisioneiros de seu bloco, junto a um estranho, passaram a cuidar dele. Lale se recuperou, momento em que o tal estranho se apresentou como Pepan, o tatuador francês, que lhe perguntou se gostaria de trabalhar com ele. Lale concordou. Algumas semanas depois, Pepan desapareceu e, assim, Lale, que nunca mais soube nada sobre ele, tornou-se o tatuador oficial do campo, papel que exerceu até dezembro de 1944, momento em que os prisioneiros pararam de entrar em Auschwitz-Birkenau.

LH – Quem teve a ideia de usar números de série para substituir os nomes de prisioneiros e por que somente os encarcerados em Auschwitz e nos campos Birkenau e Monowitz foram tatuados?

Morris – Difícil saber de quem foi a ideia em si, mas ela fazia parte do plano dos nazistas de desumanizar os prisioneiros, o que conseguiam, ao tirar os nomes deles para reduzi-los a um número. Aqui convém lembrar que o grupo de campos de Auschwitz foi escolhido como o principal campo da Solução Final de Hitler. Todos os prisioneiros, entre os que morreram ou que conseguiram se manter vivos pelo tempo que puderam resistir, tiveram toda a história de sua família registrada e arquivada sob o número tatuado. Por outro lado, não está claro por que outros campos de extermínio não fizeram tatuagens em seus prisioneiros.

LH – Como as tatuagens de identificação eram feitas?

Morris – De modo bem rudimentar, tanto que alfinetes afiados eram insertos em forma de número em um pequeno bloco de madeira, que depois era usado para perfurar a pele do prisioneiro. Uma vez que o número havia sido perfurado, tinta verde era esfregada sobre a pele machucada e, assim, formava-se o número. Porém, como o método se mostrou ineficiente, a Schutzstaffe (SS) introduziu o equipamento de agulhas duplas, que Lale usou durante todo o tempo em que trabalhou como tatuador.

LH – Embora fosse filho de judeus, depois de se tornar tatuador de Auschwitz, Lale passou a ter regalias em relação aos demais companheiros?

Morris – Além de receber uma pequena quantidade extra de comida por dia, Lale tinha tanto seu próprio quarto em um bloco que abrigava famílias ciganas quanto liberdade de movimento ao redor do campo, pois precisava estar aonde quer que seu trabalho exigisse. No entanto, ele nunca foi um prisioneiro privilegiado. Lale tinha consciência que, como qualquer outro encarcerado em Auschwitz-Birkenau, poderia ser morto a qualquer instante.

LH – Quando ele se tornou o tatuador oficial de Auschwitz, se era constantemente vigiado, como conseguiu ajudar os outros prisioneiros?

Morris – Lale começou a negociar joias e dinheiro, dados a ele pelos próprios prisioneiros, com moradores da região, que trabalhavam perto do campo. Dessa forma, ele conseguia mais comida e suprimentos, que depois distribuía entre as alas dos homens, das mulheres e dos ciganos. Quando conheceu Gita, Lale usou esse mesmo dinheiro para subornar o líder do bloco dela, para que pudesse vê-la.

Deve ter feito isso várias vezes e em outras ocasiões também. Aqui seria interessante notar que, quando as pessoas eram instruídas pelos nazistas a se preparar para a mudança, cada uma poderia levar uma mala consigo. Por isso, tais malas sempre continham os bens mais preciosos que as famílias possuíam. Mas geralmente elas convertiam seus itens valiosos em dinheiro ou pedras preciosas, pois eram mais fáceis de transportar.

Muitas vezes, as famílias escondiam o dinheiro e as joias nas roupas ou nos brinquedos que os filhos carregavam.

LH – Ele nunca sofreu acusação ou punição por tal atitude?

Morris – Lale chegou a ser pego pela SS com dinheiro e joias debaixo da cama. Levado para a unidade penal de Auschwitz, foi espancado para revelar os nomes daqueles que tinham lhe dado o montante, mas não entregou ninguém.

Depois de quatro semanas preso, retornou a Birkenau, sem nunca ter tido ideia do porque foi devolvido ao campo, quando o normal era ter sido executado a bala como a maioria dos prisioneiros da tal unidade.

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Lale e Gita em seus primeiros anos de casal após o fim da Segunda Guerra

LH – Como foi o primeiro contato entre Lale e Gita?

Morris – Em julho de 1942, quando ainda não era o tatuador oficial, Lale recebeu do francês Pepan um pedaço de papel com o número 34902, que deveria ser tatuado no braço de uma garota, cujos olhos o encantaram.

A partir de então, ele ficou sabendo que o nome dela era Gita e que estava no campo Birkenau para mulheres. A partir daí, o primeiro contato real entre eles deu-se em uma manhã de domingo no próprio complexo, com milhares de prisioneiros ao redor que lhe ofereceram cobertura para que pudessem conversar.

Apesar do curto período de tempo que tiveram, Lale sentiu que aquela era a garota com quem queria passar o resto de sua vida.

LH – Depois de se apaixonar por Gita, como Lale conseguiu ajudá-la a evitar o trabalho duro e lhe enviar algumas cartas?

Morris – Lale usou seu próprio mentor da SS, Baretski, para as duas coisas. Além de conseguir um emprego para Gita no prédio da Administração, enquanto isso não acontecia, Baretski encarregou-se de entregar as cartas de Lale a ela, que também enviava suas respostas por ele. Mas eles só trocaram duas ou três mensagens, pois era muito arriscado.

Caso um deles fosse pego com uma carta, ambos teriam sido imediatamente baleados.

LH – Tal comportamento, em relação aos demais prisioneiros, não suscitava rivalidades tanto para ele quanto para Gita?

Morris – De modo nenhum! Os amigos de Gita ficaram felizes por ela e davam a cobertura necessária para que se encontrasse com Lale. Já os amigos dele só queriam ouvir sobre Gita e sobre o quanto Lale estava apaixonado por ela.

LH – Quando Auschwitz foi libertado pelo Exército Vermelho em 27 de janeiro de 1945, para onde o casal havia sido enviado? Como eles se reencontraram
depois?

Morris – Dois dias antes de o exército russo chegar ao campo, ambos haviam sido retirados de Birkenau. Gita foi levada em uma marcha da morte, enquanto
Lale foi colocado em um trem e enviado para outro campo ainda na manhã de 25 de janeiro de 1945. Meses depois, quando os dois voltaram para a Eslováquia,
então, dominada pelos soviéticos, Lale foi procurar Gita, pois sabia que ela havia sobrevivido. Dessa forma, eles acabaram se encontrando, quase que ao acaso, nas ruas de Bratislava.

Para ler esta matéria na íntegra, adquira já a edição 116 da revista Leituras da História